Na Etiópia também é África. É certo que é uma África diferente
com contornos esguios e influência islâmica. Mas é África. Passarei a explicar
o porquê.
Vinda de Luanda pela Ethiopian Airlines com 3 horas de
atraso determinou que também o tempo destinado a disfrutar da Etiópia tivesse
estreitado. Ainda assim, a vontade de abraçar o conhecido e o desconhecido
prevalecia e a passagem pela Etiópia aparentava merecer ser devidamente assinalada
com um possível encontro.
A surpresa dianteira, dado África ser um continente imenso
com temperaturas distintas, é que às 20 horas da noite Adis Ababa com um
vestido fininho sente-se gélido!
Ora uma vez chegada à capital, a natureza surge distinta como
aprumada e a confusão raia restrita às indicações, numa limpeza mais
circunscrita. Procuro a porta de embarque num pequeno ecrã onde sobrevinham vários
voos, inclusive o predestinado Roma daqui a 1 hora e 20 minutos que ainda não anuncia
a sua porta de embarque.
Impelia pois averiguar a possibilidade de saída para
assinalar o encontro.
Na Etiópia está previsto em situações de passagem em
trânsito no país por mais de 8 horas nomeadamente com fins turísticos (há ventres
ou falta deles, que um ainda não viu) a prossecução de um visto acessível in
locuo no aeroporto.
Não tendo eu 8 horas, e ficando o turismo para outra altura,
mantinha porém a minha vontade de sair.
Expliquei a minha situação de em trânsito antes do embarque,
a um primeiro segurança que gesticula um breve: “Wait there” enquanto apontava as
portas de embarque aos sedentos em circulação de as apanhar. Reforço a minha questão
e ausculto: “Not possible – going to
board”.
Não satisfeita com algo sentido como descuido e comentário
escasso, decido perguntar a uma segurança, a quem repeti a minha explicação.
Esta, quiçá entre hipoacusica ou talvez com dificuldades de decifrar o meu inglês
num limitado etíope, repontou apenas: “Immigration”
Desço as escadas (e ali estava eu, voluntariamente, pelo meu
próprio pé, a ir no sentido contrário da porta de embarque que me levaria de
volta para essa Europa chamada “casa”).
O andar de baixo ancora um quiosque com 5 seguranças a quem
pergunto “Immigration?”, obtendo o sinal além do outro lado da fila.
Entretanto examino a presente fila com contornos de S’s, atarefada
de todos aqueles que, esses sim, cujas vidas estavam já planeadas para respirar
o ar de Abis Abeba.
Passo por baixo das fitas e chego à imigração. Um balcão
vazio e duas cadeiras. E ninguém. Surge uma segurança que diz: “Next door”. Mas
a porta contígua era um contraplacado labiríntico com vários guichés da tropa
toda do serviço. Estou eu a entrar por lá a dentro no meio do meu pensamento em
curso de: “Será que posso?” e eis que surge um indivíduo que exclama “Hey. Go
out!” E estava a adiantar-se ao meu pedido porque o que eu queria era exatcamente
um visto para sair. Adiante.
À porta do guiché expliquei-lhe a minha situação e a minha
intenção de ter o visto porque tinha um amigo na Etiópia do outro lado do
aeroporto e quem queria cumprimentar. Eis que perscruto: “visa can be for tourism not for meetings”.
Inspirada nas correntes palavras sábias de “ouve mais e fala
menos”, decidi nem falar e até nos pestanejos estava a poupar.
Ele espontaneamente continua: “Wait 2
minuts”.
E era para seguir as indicações à risca, pois em código
africano 2 minutos pode ser sim e pode ser não – nunca se sabe – e sendo que
podia ser – tal significa ser possível e estar ao alcance.
Estava nas mãos dele.
E ali estava eu sentada à espera dos 2 minutos enquanto os
passageiros congéneres tratavam da sua burocracia do visto. Ele, entra no
labirinto e uma vez lá de dentro de um guiché, pede-me o passaporte e vai para
um outro guiché.
De repente ali estava eu, do lado de fora do labirinto,
ainda dentro do aeroporto, sem o que me era importante.
Eis que o senhor regressa, permitindo-me avançar por um
corredor paralelo à saída da emigração e retornar pelo mesmo sítio mas reforça
ter menos de 1 hora, enquanto agita o meu passaporte sinalizando ao outro
colega.
E volta para o seu guiché. Ora entre o inglês parco dele, o
meu módico etíope e a situação surreal em si, mantive-me à porta do guiché.
Pensei que ele iria retroceder quiçá com o meu passaporte e com o visto ou que
definitivamente me proibisse: “Não pode sair”.
Mas ao invés, faz esta proposta, que é um chamado dar e
receber num jogo paralelo que serve aos fins mas não aos procedimentos.
E ali estou eu à porta do guiché. À espera que ele me
deixasse sair com o passaporte e o visto, descansadinha com tudo direitinho ou
que me anunciasse um não. Insisto e pergunto: “My passport?” Ele volta a declarar
o que eu conhecia mas não queria conceber. Pergunto-lhe: “What is your name?
Abraham!” E estou a ouvir o nome dele enquanto lhe agradeço, reforço a
confiança (a minha e a dele) e aponto de punho fechado para o meu coração.
Estava nas minhas mãos.
Saí. Passo pelo tal corredorzinho (embora esteja a utilizar
a primeira pessoa – esta costuma estar associada a uma identidade, o que não
era o caso, essa tinha ficado com o Abraão na fronteira e estava a acreditar
que tanto o Lincoln como o bíblico me estariam a ajudar). Mas eis que surge uma
máquina de raios para analisar as malas perante um tipo sentado na posição de
controle. Expliquei a situação. E ouço um: “Quem é o Abraão?”, “Porque é que
ele te iria ajudar?” - ora aí estavam 2 perguntas que eu também não sabia
responder. Contei voltar para trás e colocá-los em contacto.
Volto a passar o tal corredorzinho (embora ainda não tivesse
cheirado o ar da terra prometida), encontro o Abraão e explico: “I have to pass
the machines and back”. Ao que
contesta: “That’s the only choice”, questiono: “And how can I reenter?”, escutando repetidamente “That-se the only choice.”
Lembrei-me do comentário sábio prévio, associando um
toquezinho pessoal meu de “ninguém vai contigo, nem fazer isso por ti”.
E saí. O homem já não estava no seu posto de controle e eu
passei. Cá para fora.
Tinha de sair ao exterior - ali estava o colega e seu amigo
para abraços e cumprimentos (gélidos e que não foram mais do que 5 minutos) – que logo deixava de ser possível entrar pela mesma passagem. Mas
encontrámo-nos.
E eu regressei pela saída à imigração e ao Abraão, resgatei
o meu self e embarquei para a Europa.
