Mas em África também chove. E o que aprendi aqui é que chuva
não é sinónimo de frio. É sinónimo de lama, de absentismo, de acidentes, de confusão
e de atrasos. Mas frio não.
Ora no Domingo chovia. E em modo ocidental, com receio do
fecho do check-in um par de horas antes do voo, duas colegas antecipando-se,
apanharam um táxi. Eram duas, mas não sendo nós, nenhuma delas era eu. Acreditei
que se todo um grupo espera, se acontecer algo será em grupo, mesmo que tal
seja a perda de um avião. Pouco depois chegou o camugueiro (ou autocarro?) cujo
intuito, destino e missão era conduzir-nos ao aeroporto. Apesar do receio dos
atrasos (receio é uma palavra forte que premiou antes as duas desertadas do que
os restantes estoicos que esperaram o transporte planeado), houve tempo para uma
paragem para comprar fita-cola e morangos (?!) a pedido e pagamento de uma
passageira.
Uma vez no aeroporto, dirijo-me para a fila com as minhas 3 saquitas
(levei apenas uns trapos para a Huíla e regressei com pouco mais do que mais uns
papeis) com a dúvida de despachar alguma delas, embora não estivesse carregada,
mas com as mãos ocupadas: assim não teria de coartar-me (quais tentáculos absorvidos
de um polvo).
Estou eu prestes a ser atendida na fila, quando me salta uma
colega inquieta que esperasse por ela para despachar “20 kg de carne” (e não
estou a falar nem do polvo que eu me sentia, nem da dela, mas) de boi!
Eu, que ia com as minhas três saquinhas apenas, e agora ia
despachar carne, sim C-A-R-N-E, e de B-O-I. Deus! Sim, eu despacho não há
problema! Mas a rapariga ao entrar no início da fila, foi logo atracada e
alertada que carne de boi não é despachada assim do pé para a mão (nem mesmo em
África!). Antes tinha de passar pelo veterinário, (que não ia ressuscitar a
carne depois de morta, mas antes fazer o controle de qualidade) e não havendo
problema então sim, despachava-se. Apesar de me parecer uma ideia excêntrica, pelo
menos a mim que nunca transportei nem sequer um rissol nem um croquete (a não
ser já no estômago), muita gente fina lembrou-se do mesmo (de vir buscar boi ao
Lubango!) e a fila era imensa. Resulta que, perante o olhar do veterinário,
observando por fora a caixa de carne (que era opaca e já estava selada com a
fita-cola momentos antes comprada), cheirando a gasosa, claramente percebeu que
a carne estava impecável e a rapariga regressou à fila (um pouco mais leve de
kwanzas mas mais feliz) para proceder ao registo.
Entretanto já tinha passado uma boa meia hora (e já estávamos
no tempo limite do registo antes do embarque). Já tinham passado por mim no
check-in os passageiros rumo a Luanda em todas as outras companhias, a Cabo
Verde e Moçambique, e eu ia deixando passar as pessoas, com as minhas 3
saquinhas, anunciando a espera de uma colega. Até que apareceu a colega e a
carne, e pensando na insuficiência da justificação do meu bilhete e o dela para
fundamentar o transporte de toda aquela carne, solicitou a um outro potencial passageiro
cedência para colaboração (tinha 44 kg de carne de boi para serem distribuídos
entre os três) – e eu lá continuei a segurar nas minhas 3 saquinhas (acreditando
confiar mais nestas minhas mãozinhas, do que o que segue naquelas asinhas
daqueles aviõezinhos).
Subimos as escadas para a porta de embarque. Ela, assim como
muitos dos passageiros (provavelmente quase todos- consiste invulgar
transportar apenas 3 peças e outras tantas 5 ou 6 folhas) tinham despachado as
malas. Como tal, para muitos, no controle dos Raio-x pouco (ou nada) havia para
passar - o que era bastante conveniente - porque a máquina danificou-se e não
estava a funcionar.
Chega a minha vez para passar e a senhora (segurança?)
profere: “A máquina avariou, vai ser um controle manual”. Está ela a terminar
este anúncio e eu a prever: “Lá vou abrir isto tudo e ter de mostrar a roupa
suja misturada com a roupa limpa que agora parecerá suja e misturada com os
papeis”, rematando no pensamento: “Ora bolas”. E a senhora abre uma saquinha, e
imagino que com a sua visão telepática tenha inferido que dentro da mala estava
tudo bem (porque as coisas nem chegaram a sair da saca e a conhecer o ar
circundante) e ainda extravasa as suas conclusões para as outras duas malas que
nem chegaram a ver o seu fecho-eclair a andar em nenhum dos sentidos –
continuaram fechadas). E eu passei. Sem um toquezinho na pele ou um ou outro apalpãozito.
Foi aqui que me caiu a ficha e pensei: “É pá, estou em África – nunca tinha
viajado sem mostrar a bolsa.”
Lembrei-me logo daquela vez em Londres no controle do
aeroporto que a segurança (nem senhora foi) até me partiu o cartão de crédito
porque me começou a apalpar as banhas (que não tenho obviamente) e nem tive
tempo de abrir a boca para anunciar.
Mas Londres e Lubango em comum só têm o L.
Passado o controle, uma vez na sala de espera, várias
pessoas esticadas e cabisbaixo perante uma televisão que impingia uma
telenovela mexicana – o voo da TAAG que partira pela manhã cedo para Luanda
tinha regressado a terra pelas condições climáticas. Os voos estavam todos
pendentes. Mais informações ainda (não havia).
Ora, a colega de Cabo Verde já bem podia ver o cabo a ficar
mais escuro e mais distante, porque não ia apanhar concerteza o seu avião previsto
em Luanda, rota que parece só haver uma vez por semana. Igualmente os colegas
de Moçambique embora mais amiúde veriam inibida a sua descolagem. Quanto aos
clientes da sonair (a minha companhia, quer dizer antes fosse, mas sim o
bilhete que eu comprei) – a ser cancelado, o próximo voo só na 5ªfeira!
Ora, por muito que eu quisesse conhecer o Lubango (que gostava
de ter tido oportunidade de ver e visitar outros sítios, como a Serra da Leba –
3 dias de turismo de baixo de chuva seria demasiado). E o tempo de dúvida que
iríamos vivenciar no aeroporto era igualmente escusado (já teria dado tempo par
ir meter o olho na Serra da Leba enquanto o aeroporto pensa se chove ou não chove
e se voa ou não).
Entretanto surge um aviso “Senhores passageiros…” e o único
que se ouviu foram estas duas palavras, porque o restante era menos perceptível
que certos fins de discurso que apenas se deixam adivinhar pelo que lhes
antecede.
Pode ter dito qualquer coisa. Ninguém ouviu. Repito ninguém.
Tal significa mais do que eu ou um potencial conjunto de pessoas surdas com um outro
subconjunto de pessoas distraídas com ou sem a novela mexicana que ainda estava
a balbuciar. Ninguém, inclui as atentas que tudo queriam e faziam para tal
ouvir.
Uns pulas, que pensei que eram portugueses mas que ripostaram
ser angolanos (nem todo o branco é português) saíram e foram almoçar. Estamos em
Angola e os voos atrasam, cancelam-se, mas não há recompensa, ninguém pede
desculpa, não há senhas para almoço, nem ninguém paga nada. Mas pode-se ir
comer a casa um funje (apesar do dia dele ser ao sábado), um feijão de óleo de palma
(que eu bem gosto), e um gelado de sapi sapi. Mesmo se houver confusão ou a
casa for um pouco distante. Dá tempo…
Ora, entre os atrasos a amiga ucraniana quis despedir-se e anuncia
a sua incursão ao aeroporto para me dar um abraço. “Que bom!”-pensei,
continuando “O voo ainda está atrasado”. “Mas como vou fazer para sair?”- questionei-me.
Entretanto liga-me ela que já estava no aeroporto com o marido, o filho e umas
frutas para me oferecer. Reforço a minha reflexão - “Mas como vou fazer para
sair do aeroporto?”, avançando: “Direi que vou fumar!” (passou-me antes pela
cabeça invocar a necessidade de querer fazer xixi, mas essa poderia não colar e
não ser verossímil, pois dentro, apesar de não haver autoclismo e se ter de
atirar o balde pela fossa, existe retrete) – vou anunciar a minha necessidade de
ir fumar – é que apesar de estarmos em África é proibido fumar nos aeroportos, embora
não haja uma salinha alternativa para aqueles que queiram inalar).
Ora, estava eu a tentar pedir para ir fumar simulando um bafo
identicamente fumador (a ocultar os cigarros que nem possuo e nem transportava)
e já estava a ucraniana a avançar a sala de embarque a dentro a explicar que me
ia levar só umas frutinhas. E entrou.
Ora bem. Estava perplexa.
Ela com a história dela das frutas (qual salvadora do escorbuto
de uma avitaminose abrupta que me arriscasse dar) e eu a contrapor com uma
falsa vontade de me intoxicar. Estava duplamente incrédula.
E saímos! (longe de vexames)
Entretanto estava a comitiva toda (portanto, a fina flor) da
CO e do CE, cheios de pressa e cheios de bois – com prioridades e urgências,
porque a vida urgia-lhes continuar fosse por ar ou por terra.
Começa um alvoroço de telefonemas: “Freta avião para aqui,
freta avião para ali, aponta aí a lista de passageiros – vamos com o avião até
ao Namibe” isto enquanto se anotavam breves advertências de ciência decisiva
numa simples folhinha. Oh Meu Deus! Assim se decidem os movimentos do mundo.
E eis que surge o: “E ela vai connosco”.
Mas ela agora tem aqui umas frutinhas a mais, a juntar a
umas saquinhas lá dentro à espera. Induzida pela proposta, volto para resgatar
as saquinhas e estender o convite de regresso via Namibe às companheiras. Mas
elas tinham despachado a carne, as malas e a alma e acreditavam que a ida e o
regresso deveriam ser pela mesma rota. Ora como viemos juntas, deveríamos
regressar juntas. Também com a carne. E o autocarro partiu e não fui para o
Namibe.
A ucraniana voltou. As frutas entraram. E as malas passaram.
E nós continuamos a esperar.
O altifalante voltou a dizer qualquer coisa que continuará a
não se deduzir e a telenovela mexicana terminou. Começou a dar o Mr Bean. Ver o
Mr Bean em África faz-nos repensar a comédia, o retraso mental, a cultura, as
etnias, a oligofrenia. Como me ri. Não sabia se ia estar ali até 5ªfeira e a mesma
personalidade que leciona gestão de tempo, estava a ver o Mr Bean (que também
posso ver no meu sofá em casa no Porto) e não estava a ver a Serra Leba – mas estava
a rir-me. E se viemos juntos íamos regressar juntos. Ou mesmo que não regressássemos,
pelo menos juntos estávamos.
Entretanto aterra um avião era o voo da TAAG que partiu de
manhã que iria sair para Luanda.
Enquanto isto, eu já tinha convivido e recolhido toda uma
lista de contactos dos existentes sentados naqueles bancos da esfera psi.
Surge a informação que o avião da sonair viria.
Eram 16h (já lá estava desde as 8h00, o almoço e o concerto
em Luanda esperavam, pendentes).
Às 17h veio. Em êxtase entrámos no voo (relembro que já
tinha entrado e saído da porta de embarque umas 5 vezes) e desde a última vez
até esta, em que subia paulatinamente as escadinhas da sonair nunca mais
ninguém me pediu o passaporte, o visto ou o bilhete. Eu podia ser o Carlos
Sousa e ter um bilhete para Marraquexe que ali estaria, segura, se calhar também
com uns 20kgs de carne de porco (ou de outra coisa qualquer) na bagageira.
Eu, que tinha vindo preparada com umas folhinhas com
certificado de vacinas, curriculum, vistos, biografia, (só faltava a composição
que tive excelente e fiz na 4ªclasse) e ninguém me pediu nada!
As passageiras levaram em mão as suas malinhas para a asa do
avião, conforme a habitual normalidade.
E eu aprendi que: chuva não é sinónimo de frio, branco não é
sinónimo de português e comprar um bilhete não é sinónimo de mostrá-lo.
Meus amigos, estamos em África.
PS- Da Subida
http://vimeo.com/48872611
(da Huíla a Luanda - desta vez sem passar pelo Namibe)