O ano acabou e Lisboa também.
Acabou no Ateneu por entre crianças e apitos e foi dar onde as Cebolas se defrontam nos Campos. Restava acabar o Combro e a Calçada, o 52 e o seu 2º esquerdo. Faltavam as mudanças.
Era cedo na manhã de Domingo e apenas terminava os últimos preparos para erguer o carro e partir rumo ao Sul. Por entre subidas e descidas, por entre jornadas de casa ao parque, uma delas pregou mais alto e só se ouviu "Pum!"
E ali fiquei eu, do lado de fora da porta do que iria ser em breve, a minha antiga casa.
Sem chaves de casa, sem chaves do carro, sem telemóveis, sem carteira, sem dinheiro e sem casaco. Enfim, despida do essencial.
Nada haveria de estranho a contar, se tudo tivesse acontecido 5 minutos depois, e todos esses meus pertences estivessem do lado de fora da porta.
O Combro acabava quando a porta batesse e eu tivesse tudo comigo. Era assim que estava escrito e era conforme deveria ser: uma espécie de ordem ou processo natural das coisas.
Mas 5 minutos faziam e fizeram a diferença.
E eu tinha assuntos e interesses acordados em Faro dali a duas horas. Não havia tempo para brincadeirinhas desta espécie.
Mas de facto não era uma partida e após ser muito abanada, a porta não abria mesmo.
Teria que inventar um Abracadabra que por um qualquer acto de magia fosse capaz de abrir a porta?
Ora pela manhã, com as ideias nos bolsos, havia que engendrar.
Uma amiga de amigo viria em breve num par de horas a ser vizinha de baixo da minha quase antiga casa e havia que entrar em contacto com ela. Só que ali estava eu e não possuía um telemóvel.
A florista barra loja de couves do andar de baixo (onde durante aquele ano nunca lá tinha ido), era o único estabelecimento aberto nas redondezas no primeiro Domingo do ano.
Tal, parecia ser o primeiro passo de esperança de que tudo poderia vir a experimentar uma solução. Entrei na loja e ali estava ela, de caracóis negros e lábios vermelhos com um pé de alface na mão. Expliquei-lhe o que tinha acontecido. Sorriu e disse “Não falo!” Eu ainda tentei “Em English?”, ao que ela retorquiu “No. Bulgaria.”
Detinha perante mim a única pessoa que me podia ajudar, mas que não me entendia. Imitei sinais com os dedos, em jeito de marcar um número de telefone, acompanhados de sons que tentavam retratar o famoso “Trim!”. Ela entendeu, erguendo-me entre um sorriso, o seu telemóvel. Fiz uma chamada que prometia ser desencadeadora e dar lugar ao processo de contactar a futura vizinha. Fiquei de aguardar uma outra chamada. Mas era-me insuportável e impraticável conseguir esperar. Receosamente pronuncio permissão para realizar outra chamada. Fez logo sinal que sim, o telemóvel é que não. Tinha-lhe esgotado o saldo!
Pedi-lhe mil desculpas, ela afagou-me em sinal de despreocupação, compactuando com o meu sofrimento, embora não compreendesse.
Tinha que agir de outra forma. O tempo passava e a porta continuava fechada.
Lembrei-me dos vizinhos do lado. Mas o ano também tinha passado e eu nunca tinha falado com eles. Mais vale tarde do que nunca, pensei. E se havia dia, era aquele. Assim foi. Toquei à campainha e abriram-me a porta. Ali estava eu do lado de fora da porta de casa dos meus futuros ex-vizinhos do lado, porta com porta. Eram indianos, mas falavam bem Português. Simpáticos, igualmente eles me emprestaram o seu telefone. Entre chamadas, acabei por convocar os bombeiros. Agora tinha que esperar: por eles e pela polícia. Mas eles estavam a almoçar, pelo que tudo prometia demorar.
Os vizinhos indianos aprontaram-se em oferecer o seu sofá e em dar-me a provar as suas iguarias hindus. O tempo previa-se não passar. E ali estava eu: quietinha, super sentada no sofá indiano, mesmo ao lado dos vários comandos ocidentais, com os joelhos quase a ofender o armário da frente, onde entidades ancestrais indianas perfilavam perante os meus olhos e eu aprumava diante deles.
Discretamente admirava tudo o que se expressava ser a sua casa. Mesmo do outro lado da porta da minha, onde se registavam arquitecturas, interesses, sabores e odores de vidas tão distintos. E naquele último dia eu estava do outro lado, das suas mãos, do seu lugar. Teríamos sido os vizinhos mais atípicos e menos confraternizadores. Parecia irónico o ano começar assim, entendido do outro lado.
De repente avisto lá em baixo o camião dos bombeiros. Praticamente saltei do sofá. Toda eu era uma vontade imensa de terminar aquele ritual. Queria abrir a porta e poder partir.
Vieram os bombeiros e a polícia. Mas eu já não tinha nada dentro de casa, nem sequer nenhum comprovativo que demonstrasse que eu morava ou teria morado ali.
Ninguém sabia como podia ou não agir. Era necessário cumprir protocolos e leis.
Poderia não ter batido a porta? Poderia não ter começado aquele primeiro Domingo assim?
Podia, mas não tinha sido a mesma coisa.
E a porta abriu-se!
segunda-feira, janeiro 03, 2011
sexta-feira, dezembro 31, 2010
f Iac
Acabou a Medicina.
Acabou como começou: com um banco.
Sem apresentações e sem despedidas.
Para trás sangue, suor e lágrimas.
Para trás gasimetrias, noites no Hospital de Dia, discussões diárias e visitas semanais.
Por entre olhos revirados e sorrisos.
Acabou o piso 3. Acabou a Ortopedia.
Acabou à mesma hora.
E acabou mesmo.
E acabou o Ano Comum.
E em breve acaba o ano.
Acabou como começou: com um banco.
Sem apresentações e sem despedidas.
Para trás sangue, suor e lágrimas.
Para trás gasimetrias, noites no Hospital de Dia, discussões diárias e visitas semanais.
Por entre olhos revirados e sorrisos.
Acabou o piso 3. Acabou a Ortopedia.
Acabou à mesma hora.
E acabou mesmo.
E acabou o Ano Comum.
E em breve acaba o ano.
terça-feira, dezembro 28, 2010
Yeah Yeah Yeahs
Assim uma tarde de fundo azul deu lugar a uma noite com ponto rosa.
De músicas e devaneios.
Vais fazer falta nesta Ponta.
sábado, dezembro 25, 2010
terça-feira, dezembro 14, 2010
quarta-feira, dezembro 08, 2010
domingo, dezembro 05, 2010
sábado, dezembro 04, 2010
quinta-feira, dezembro 02, 2010
quarta-feira, dezembro 01, 2010
terça-feira, novembro 23, 2010
quinta-feira, novembro 18, 2010
sábado, novembro 13, 2010
segunda-feira, novembro 01, 2010
sexta-feira, outubro 22, 2010
SBV
- Senhor Armindo! Está-me a ouvir?
Ajuda!
Permeabilizar a via aérea
Ver, Ouvir, Sentir (10seg)
Se respira: Posição Lateral de Segurança
Se não respira: 30 compressões (100/min) e 2 ventilações (10/min)
Porque a Paragem cardíaca é a principal causa de morte na Europa (700.000/ano) e iniciar precocemente a ressuscitação cardiopulmonar pode triplicar a sobrevida das vítimas em Paragem por Fibrilação Ventricular.
Ajuda!
Permeabilizar a via aérea
Ver, Ouvir, Sentir (10seg)
Se respira: Posição Lateral de Segurança
Se não respira: 30 compressões (100/min) e 2 ventilações (10/min)
Porque a Paragem cardíaca é a principal causa de morte na Europa (700.000/ano) e iniciar precocemente a ressuscitação cardiopulmonar pode triplicar a sobrevida das vítimas em Paragem por Fibrilação Ventricular.
segunda-feira, setembro 27, 2010
Galerias
As Galerias Romanas, a cinco metros abaixo do solo da baixa pombalina, foram descobertas durante a reconstrução da cidade após o grande terramoto de 1755.
Contudo, podem apenas ser visitadas uma vez por ano, uma vez que estão submersas num nível de água elevado, e a sua bombagem é um processo moroso, que aparentemente levanta problemas de conservação do próprio edifício e dos edifícios anexos, se retirada mais frequentemente.
Devido à grande adesão do público a estas visitas, demorámos 3 horas desde demarcar a ponta da fila com o pequeno-almoço, até sair pela tampa de saneamento da Rua da Prata.
Mas valeu muito a pena, que a Senhora das galochas narrava histórias acertadas e mostrou uma inscrição em latim dedicada a Esculápio, que afinal era o Deus da Medicina.
Contudo, podem apenas ser visitadas uma vez por ano, uma vez que estão submersas num nível de água elevado, e a sua bombagem é um processo moroso, que aparentemente levanta problemas de conservação do próprio edifício e dos edifícios anexos, se retirada mais frequentemente.
Devido à grande adesão do público a estas visitas, demorámos 3 horas desde demarcar a ponta da fila com o pequeno-almoço, até sair pela tampa de saneamento da Rua da Prata.
Mas valeu muito a pena, que a Senhora das galochas narrava histórias acertadas e mostrou uma inscrição em latim dedicada a Esculápio, que afinal era o Deus da Medicina.
quarta-feira, setembro 22, 2010
Confúcio
Depois do choque de voltar da China, nada como aprender Chinês como provocação.
O objectivo era aprender a falar e escrever o básico, ou pelo menos compreender e falar um bocadinho de Chinês simplificado, ou cá entre nós mandarim, e reconhecer o máximo de símbolos que depois de um dia de trabalho em Medicina se pode conseguir.
Embora haja mais de 50mil caracteres chineses, se mais de 1 bilião e meio de pessoas do outro lado do mundo consegue ler e falar este idioma, nada como também dar uma oportunidade à língua deste lado do planeta.
E assim me inaugurei no Instituto Confúcio.
Ora, depois de um dia de trabalho, aprender Chinês não só é muito terapêutico, como é de morrer a rir.
A Professora e toda a classe riem-se constantemente dos ruídos e sonidos, que muitas vezes nos saem literalmente ao lado, sempre que alguém tenta com coragem, começar a repetir um dos requisitados sons das várias combinações de iniciais e de finais.
E aí muitas vezes é o pim pam pum. Aprende-se a colocar a língua nos dentes para ser mais chinês e o som sair de uma forma mais autêntica. Mas por vezes torna-se difícil.
A própria professora também se baralha um bocado, mas já ela, é mais no Inglês, porque diz sempre “Do you think so?” quando quer dizer “Don’t you think so?”
Sim, nem sempre se percebe, daí o Chinês ser Chinês.
O objectivo era aprender a falar e escrever o básico, ou pelo menos compreender e falar um bocadinho de Chinês simplificado, ou cá entre nós mandarim, e reconhecer o máximo de símbolos que depois de um dia de trabalho em Medicina se pode conseguir.
Embora haja mais de 50mil caracteres chineses, se mais de 1 bilião e meio de pessoas do outro lado do mundo consegue ler e falar este idioma, nada como também dar uma oportunidade à língua deste lado do planeta.
E assim me inaugurei no Instituto Confúcio.
Ora, depois de um dia de trabalho, aprender Chinês não só é muito terapêutico, como é de morrer a rir.
A Professora e toda a classe riem-se constantemente dos ruídos e sonidos, que muitas vezes nos saem literalmente ao lado, sempre que alguém tenta com coragem, começar a repetir um dos requisitados sons das várias combinações de iniciais e de finais.
E aí muitas vezes é o pim pam pum. Aprende-se a colocar a língua nos dentes para ser mais chinês e o som sair de uma forma mais autêntica. Mas por vezes torna-se difícil.
A própria professora também se baralha um bocado, mas já ela, é mais no Inglês, porque diz sempre “Do you think so?” quando quer dizer “Don’t you think so?”
Sim, nem sempre se percebe, daí o Chinês ser Chinês.
domingo, setembro 19, 2010
Retida na China
Era o nosso último dia na China.
O relógio marcava 7horas e 29minutos quando chegámos à Estação de Comboio de Pequim.
Muita coisa ainda ambicionávamos cumprir naquelas atribuladas 24 horas, contudo visitar o Hospital, conhecer a Maria e ir ao Estádio Olímpico pareciam os objectivos mais pretendidos.
Depois de visitarmos com o Prof. Wu a Beijing Chinese Academy of Medical Sciences, entrámos num táxi em direcção ao Qian Men Hostel, onde tudo tinha para nós começado há 3 semanas atrás. Era aí que íamos deixar as mochilas, enquanto aproveitávamos aquele último dia.
Na expectativa da resposta da Maria, fomos passear no Hutong atrás do Hostel, circunstância ideal para negociar e adquirir um chapéu chinês.
Entretanto, se de facto o que estávamos a fazer eram compras, decidimos partir para um highlight que nos faltava, o Panjiayuan Antique Market, famoso mercado ao ar livre, reconhecido como programa indicado para todo o tipo de pessoas, que considerámos ponto ideal para dar continuidade a este importuno ímpeto de consumo, uma vez que se assegurava aí ser possível encontrar de tudo.
Acabados de chegar nem há 5 minutos, separo-me da Luísa e do Miguel para ir à casa de banho. O mercado é imenso, labiríntico e repleto de gente. Sigo as placas que indicam Toilet, ainda inconsciente do meu trágico destino.
À saída, de repente, entrevejo um esticão e assim que atento, tinha a mochila aberta, completamente aberta. Roubaram-me tudo o que para mim era tudo!
Naquele instante, não consegui pensar. Não me era possível declarar em palavras aquilo que o meu cérebro já tinha concluído. E não conseguia encontrá-los de volta naquela confusão onde os tinha deixado minutos antes. E não sabia o que iria fazer, nem o que me iria acontecer, mas queria muito agir, e rápido.
Ainda em alvoroço, encontro-os e relato o que tinha acabado de ocorrer. Tinha sido assaltada. Roubaram-me tudo: passaporte, visto, bilhete de identidade, carta de condução, cartões de crédito, débito, euros e yuans. Tudo, literalmente tudo, e faltavam poucas horas para o meu suposto regresso.
Não tinha nada e não era ninguém.
Em sobressalto, saímos do mercado e tentámos apanhar um táxi de volta ao Hostel. Esperava aí ter as fotocópias dos documentos, e que estas me permitissem arranjar uma solução fugaz. Tinha esperança que tudo tivesse passado de um pesadelo.
Entre telefonemas com a Mãe, Embaixada e Maria, era necessário actuar. Exigiam-se cumprir mil tarefas, mas era impossível comunicar.
Fui à Polícia sozinha, folheando apenas o meu guia de conversação, repleto de imagens legendadas em inglês, acompanhadas de seus respectivos símbolos em chinês simplificado, tentando traduzir o que havia sucedido.
Seria aquele o método suposto para eu explicar aquela situação, fazendo-me comunicar simplesmente com um parco guia em que constava a imagem de um Passaporte, identificado nos seus símbolos como 护照 (huzhao), onde aparecia, mesmo na página anterior recentemente folheada, o também incluído arroz branco, 米饭 (mifan)?
Tudo parecia demorar uma eternidade. Naquela esquadra ninguém falava Inglês, ninguém procurava decifrar as minhas explanações, ninguém interpretava os meus pedidos, ninguém pretendia auxiliar, ninguém tencionava justificar o ocorrido, e ninguém me queria facultar nenhuma declaração.
Retorquiam com gritos seguros, sempre em chinês, que escusado será referir, eu claramente não compreendia. Revoltada, contrapus esclarecer a situação numa outra estação. Os telefones tocavam incessantemente, admitindo vozes distintas, que ora surgiam em chinês, ora após profunda indignação em inglês, apresentando todo o tipo de missivas, obstáculos e questões.
Tudo se entendia sucessivamente deliberar-se, dificultar-se, aparentemente solucionar-se e repetida e novamente bloquear-se, sem que eu partilhasse a mínima ideia ou noção do que estava de facto a suceder.
Ainda na estação da polícia analiso que tinha sido juntamente roubado o cartão memória com todas as fotografias do que tinha sido aquela viagem, mas já não possuía energias para reagir.
Era Sábado e estava a lutar contra o tempo.
Ali estava eu: duas pernas e dois braços. Passou-me pela cabeça que não podia ficar doente. Ninguém que não tem nada, não pode ficar doente, que isso só dificulta.
Já era noite. O dia tinha passado, o avião que iríamos apanhar estava prestes a partir e, quando inquirida, lembrei-me que não tinha comido, mas estava cansada e tudo me parecia afinal surreal. Tinha sido um dia atribulado. Precisava de dormir.
O que eu desconhecia naquele momento é que estava dado o mote para instaurar-se todo um processo kafkaniano, numa sucessão interminável de documentos em falta, que ninguém sabia serem necessários, e que progressivamente me iam sendo solicitados quando procurava realizar as diversas tarefas que no futuro me iriam permitir ter um visto e comprar uma viagem para voltar. As referidas entidades protelavam em fornecer-me os diferentes tipos de documentação que me tinham sido exigidos, mostrando-se inacessíveis, confrontados com o medo de ao auxiliarem, cometerem algum tipo de irregularidade, perante normas impostas por autoridades que os inspeccionam a eles e que me controlavam a mim.
Desde impossibilitada a dormir no Hostel por não possuir um visto, a autorizações temporárias de residência que não me queriam ceder, por ainda não dispôr de uma autorização da polícia local que me aprovasse estar a pisar território chinês de uma forma legal, enquanto tratava de todas as burocracias pendentes que tinha de resolver para dali sair, tudo aconteceu.
Preenchi imensos formulários e fiz demasiadas cópias de numerosos documentos. Mas faltava sempre qualquer coisa. Nada era garantia de nada. Surgiam sempre novos obstáculos, mesmo quando a situação parecia estar a ser levada a bom porto. Esperei em inúmeras filas para falar com tantos chefes que me permitissem pedir todas as autorizações mais do que urgentes e mais do que especiais.
Já não queria ver nada. Não queria absorver mais estímulos. Não queria mais símbolos, nem regulamentos, nem autorizações. Não queria ter que ter mais histórias para contar. Queria que me lessem os pensamentos daquilo que sentia para não ter que falar. Nem Chinês, nem Inglês, nem Português.
O relógio marcava 7horas e 29minutos quando chegámos à Estação de Comboio de Pequim.
Muita coisa ainda ambicionávamos cumprir naquelas atribuladas 24 horas, contudo visitar o Hospital, conhecer a Maria e ir ao Estádio Olímpico pareciam os objectivos mais pretendidos.
Depois de visitarmos com o Prof. Wu a Beijing Chinese Academy of Medical Sciences, entrámos num táxi em direcção ao Qian Men Hostel, onde tudo tinha para nós começado há 3 semanas atrás. Era aí que íamos deixar as mochilas, enquanto aproveitávamos aquele último dia.
Na expectativa da resposta da Maria, fomos passear no Hutong atrás do Hostel, circunstância ideal para negociar e adquirir um chapéu chinês.
Entretanto, se de facto o que estávamos a fazer eram compras, decidimos partir para um highlight que nos faltava, o Panjiayuan Antique Market, famoso mercado ao ar livre, reconhecido como programa indicado para todo o tipo de pessoas, que considerámos ponto ideal para dar continuidade a este importuno ímpeto de consumo, uma vez que se assegurava aí ser possível encontrar de tudo.
Acabados de chegar nem há 5 minutos, separo-me da Luísa e do Miguel para ir à casa de banho. O mercado é imenso, labiríntico e repleto de gente. Sigo as placas que indicam Toilet, ainda inconsciente do meu trágico destino.
À saída, de repente, entrevejo um esticão e assim que atento, tinha a mochila aberta, completamente aberta. Roubaram-me tudo o que para mim era tudo!
Naquele instante, não consegui pensar. Não me era possível declarar em palavras aquilo que o meu cérebro já tinha concluído. E não conseguia encontrá-los de volta naquela confusão onde os tinha deixado minutos antes. E não sabia o que iria fazer, nem o que me iria acontecer, mas queria muito agir, e rápido.
Ainda em alvoroço, encontro-os e relato o que tinha acabado de ocorrer. Tinha sido assaltada. Roubaram-me tudo: passaporte, visto, bilhete de identidade, carta de condução, cartões de crédito, débito, euros e yuans. Tudo, literalmente tudo, e faltavam poucas horas para o meu suposto regresso.
Não tinha nada e não era ninguém.
Em sobressalto, saímos do mercado e tentámos apanhar um táxi de volta ao Hostel. Esperava aí ter as fotocópias dos documentos, e que estas me permitissem arranjar uma solução fugaz. Tinha esperança que tudo tivesse passado de um pesadelo.
Entre telefonemas com a Mãe, Embaixada e Maria, era necessário actuar. Exigiam-se cumprir mil tarefas, mas era impossível comunicar.
Fui à Polícia sozinha, folheando apenas o meu guia de conversação, repleto de imagens legendadas em inglês, acompanhadas de seus respectivos símbolos em chinês simplificado, tentando traduzir o que havia sucedido.
Seria aquele o método suposto para eu explicar aquela situação, fazendo-me comunicar simplesmente com um parco guia em que constava a imagem de um Passaporte, identificado nos seus símbolos como 护照 (huzhao), onde aparecia, mesmo na página anterior recentemente folheada, o também incluído arroz branco, 米饭 (mifan)?
Tudo parecia demorar uma eternidade. Naquela esquadra ninguém falava Inglês, ninguém procurava decifrar as minhas explanações, ninguém interpretava os meus pedidos, ninguém pretendia auxiliar, ninguém tencionava justificar o ocorrido, e ninguém me queria facultar nenhuma declaração.
Retorquiam com gritos seguros, sempre em chinês, que escusado será referir, eu claramente não compreendia. Revoltada, contrapus esclarecer a situação numa outra estação. Os telefones tocavam incessantemente, admitindo vozes distintas, que ora surgiam em chinês, ora após profunda indignação em inglês, apresentando todo o tipo de missivas, obstáculos e questões.
Tudo se entendia sucessivamente deliberar-se, dificultar-se, aparentemente solucionar-se e repetida e novamente bloquear-se, sem que eu partilhasse a mínima ideia ou noção do que estava de facto a suceder.
Ainda na estação da polícia analiso que tinha sido juntamente roubado o cartão memória com todas as fotografias do que tinha sido aquela viagem, mas já não possuía energias para reagir.
Era Sábado e estava a lutar contra o tempo.
Ali estava eu: duas pernas e dois braços. Passou-me pela cabeça que não podia ficar doente. Ninguém que não tem nada, não pode ficar doente, que isso só dificulta.
Já era noite. O dia tinha passado, o avião que iríamos apanhar estava prestes a partir e, quando inquirida, lembrei-me que não tinha comido, mas estava cansada e tudo me parecia afinal surreal. Tinha sido um dia atribulado. Precisava de dormir.
O que eu desconhecia naquele momento é que estava dado o mote para instaurar-se todo um processo kafkaniano, numa sucessão interminável de documentos em falta, que ninguém sabia serem necessários, e que progressivamente me iam sendo solicitados quando procurava realizar as diversas tarefas que no futuro me iriam permitir ter um visto e comprar uma viagem para voltar. As referidas entidades protelavam em fornecer-me os diferentes tipos de documentação que me tinham sido exigidos, mostrando-se inacessíveis, confrontados com o medo de ao auxiliarem, cometerem algum tipo de irregularidade, perante normas impostas por autoridades que os inspeccionam a eles e que me controlavam a mim.
Desde impossibilitada a dormir no Hostel por não possuir um visto, a autorizações temporárias de residência que não me queriam ceder, por ainda não dispôr de uma autorização da polícia local que me aprovasse estar a pisar território chinês de uma forma legal, enquanto tratava de todas as burocracias pendentes que tinha de resolver para dali sair, tudo aconteceu.
Preenchi imensos formulários e fiz demasiadas cópias de numerosos documentos. Mas faltava sempre qualquer coisa. Nada era garantia de nada. Surgiam sempre novos obstáculos, mesmo quando a situação parecia estar a ser levada a bom porto. Esperei em inúmeras filas para falar com tantos chefes que me permitissem pedir todas as autorizações mais do que urgentes e mais do que especiais.
Já não queria ver nada. Não queria absorver mais estímulos. Não queria mais símbolos, nem regulamentos, nem autorizações. Não queria ter que ter mais histórias para contar. Queria que me lessem os pensamentos daquilo que sentia para não ter que falar. Nem Chinês, nem Inglês, nem Português.
quinta-feira, setembro 09, 2010
China 中国
A ideia partiu do pretexto de ir de férias o mais longe possível, tão longe como a China.
Só que desta vez foi-se mesmo, literalmente.
A Luísa não queria ir à índia, eu preferia Oriente e o Miguel sugeriu China. Tudo começou na madrugada de Santo António.
E eis que do outro lado surge: “E vão só à China?”, como se o impacto China por si só não fosse suficiente e exigisse o acréscimo de um Mianmar ou outro destino congénere, como sinal de, aí sim, uma atracção misteriosa e exótica q.b.
Além do mais, se tudo em todo o lado é feito na China, mais vale ir directamente à génese, origem de todo o tipo de material.
Tudo estava em chinês e para nós, tudo era chinês! Queríamos muito ver muito, fazer muito, compreender muito. Tínhamos muitos sonhos, projectos e vontades.
Depois de muitas histórias, imprevistos, passatempos e contratempos, finalmente de volta.
Para trás ficou um passaporte, um visto, um bilhete de identidade, cartões de crédito e débito, uma carta de condução, dinheiro e praticamente todas as fotografias.
Só que desta vez foi-se mesmo, literalmente.
A Luísa não queria ir à índia, eu preferia Oriente e o Miguel sugeriu China. Tudo começou na madrugada de Santo António.
Além do mais, se tudo em todo o lado é feito na China, mais vale ir directamente à génese, origem de todo o tipo de material.
Tudo estava em chinês e para nós, tudo era chinês! Queríamos muito ver muito, fazer muito, compreender muito. Tínhamos muitos sonhos, projectos e vontades.
Depois de muitas histórias, imprevistos, passatempos e contratempos, finalmente de volta.
Para trás ficou um passaporte, um visto, um bilhete de identidade, cartões de crédito e débito, uma carta de condução, dinheiro e praticamente todas as fotografias.
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