Era o nosso último dia na China.
O relógio marcava 7horas e 29minutos quando chegámos à Estação de Comboio de Pequim.
Muita coisa ainda ambicionávamos cumprir naquelas atribuladas 24 horas, contudo visitar o Hospital, conhecer a Maria e ir ao Estádio Olímpico pareciam os objectivos mais pretendidos.
Depois de visitarmos com o Prof. Wu a
Beijing Chinese Academy of Medical Sciences, entrámos num táxi em direcção ao
Qian Men Hostel, onde tudo tinha para nós começado há 3 semanas atrás. Era aí que íamos deixar as mochilas, enquanto aproveitávamos aquele último dia.
Na expectativa da resposta da Maria, fomos passear no
Hutong atrás do Hostel, circunstância ideal para negociar e adquirir um chapéu chinês.
Entretanto, se de facto o que estávamos a fazer eram compras, decidimos partir para um
highlight que nos faltava, o
Panjiayuan Antique Market, famoso mercado ao ar livre, reconhecido como programa indicado para todo o tipo de pessoas, que considerámos ponto ideal para dar continuidade a este importuno ímpeto de consumo, uma vez que se assegurava aí ser possível encontrar de tudo.
Acabados de chegar nem há 5 minutos, separo-me da Luísa e do Miguel para ir à casa de banho. O mercado é imenso, labiríntico e repleto de gente. Sigo as placas que indicam
Toilet, ainda inconsciente do meu trágico destino.
À saída, de repente, entrevejo um esticão e assim que atento, tinha a mochila aberta, completamente aberta. Roubaram-me tudo o que para mim era tudo!
Naquele instante, não consegui pensar. Não me era possível declarar em palavras aquilo que o meu cérebro já tinha concluído. E não conseguia encontrá-los de volta naquela confusão onde os tinha deixado minutos antes. E não sabia o que iria fazer, nem o que me iria acontecer, mas queria muito agir, e rápido.
Ainda em alvoroço, encontro-os e relato o que tinha acabado de ocorrer. Tinha sido assaltada. Roubaram-me tudo: passaporte, visto, bilhete de identidade, carta de condução, cartões de crédito, débito, euros e yuans. Tudo, literalmente tudo, e faltavam poucas horas para o meu suposto regresso.
Não tinha nada e não era ninguém.
Em sobressalto, saímos do mercado e tentámos apanhar um táxi de volta ao Hostel. Esperava aí ter as fotocópias dos documentos, e que estas me permitissem arranjar uma solução fugaz. Tinha esperança que tudo tivesse passado de um pesadelo.
Entre telefonemas com a Mãe, Embaixada e Maria, era necessário actuar. Exigiam-se cumprir mil tarefas, mas era impossível comunicar.
Fui à Polícia sozinha, folheando apenas o meu guia de conversação, repleto de imagens legendadas em inglês, acompanhadas de seus respectivos símbolos em chinês simplificado, tentando traduzir o que havia sucedido.
Seria aquele o método suposto para eu explicar aquela situação, fazendo-me comunicar simplesmente com um parco guia em que constava a imagem de um Passaporte, identificado nos seus símbolos como 护照 (
huzhao), onde aparecia, mesmo na página anterior recentemente folheada, o também incluído arroz branco, 米饭 (
mifan)?
Tudo parecia demorar uma eternidade. Naquela esquadra ninguém falava Inglês, ninguém procurava decifrar as minhas explanações, ninguém interpretava os meus pedidos, ninguém pretendia auxiliar, ninguém tencionava justificar o ocorrido, e ninguém me queria facultar nenhuma declaração.
Retorquiam com gritos seguros, sempre em chinês, que escusado será referir, eu claramente não compreendia. Revoltada, contrapus esclarecer a situação numa outra estação. Os telefones tocavam incessantemente, admitindo vozes distintas, que ora surgiam em chinês, ora após profunda indignação em inglês, apresentando todo o tipo de missivas, obstáculos e questões.
Tudo se entendia sucessivamente deliberar-se, dificultar-se, aparentemente solucionar-se e repetida e novamente bloquear-se, sem que eu partilhasse a mínima ideia ou noção do que estava de facto a suceder.
Ainda na estação da polícia analiso que tinha sido juntamente roubado o cartão memória com todas as fotografias do que tinha sido aquela viagem, mas já não possuía energias para reagir.
Era Sábado e estava a lutar contra o tempo.
Ali estava eu: duas pernas e dois braços. Passou-me pela cabeça que não podia ficar doente. Ninguém que não tem nada, não pode ficar doente, que isso só dificulta.
Já era noite. O dia tinha passado, o avião que iríamos apanhar estava prestes a partir e, quando inquirida, lembrei-me que não tinha comido, mas estava cansada e tudo me parecia afinal surreal. Tinha sido um dia atribulado. Precisava de dormir.
O que eu desconhecia naquele momento é que estava dado o mote para instaurar-se todo um processo
kafkaniano, numa sucessão interminável de documentos em falta, que ninguém sabia serem necessários, e que progressivamente me iam sendo solicitados quando procurava realizar as diversas tarefas que no futuro me iriam permitir ter um visto e comprar uma viagem para voltar. As referidas entidades protelavam em fornecer-me os diferentes tipos de documentação que me tinham sido exigidos, mostrando-se inacessíveis, confrontados com o medo de ao auxiliarem, cometerem algum tipo de irregularidade, perante normas impostas por autoridades que os inspeccionam a eles e que me controlavam a mim.
Desde impossibilitada a dormir no Hostel por não possuir um visto, a autorizações temporárias de residência que não me queriam ceder, por ainda não dispôr de uma autorização da polícia local que me aprovasse estar a pisar território chinês de uma forma legal, enquanto tratava de todas as burocracias pendentes que tinha de resolver para dali sair, tudo aconteceu.
Preenchi imensos formulários e fiz demasiadas cópias de numerosos documentos. Mas faltava sempre qualquer coisa. Nada era garantia de nada. Surgiam sempre novos obstáculos, mesmo quando a situação parecia estar a ser levada a bom porto. Esperei em inúmeras filas para falar com tantos chefes que me permitissem pedir todas as autorizações mais do que urgentes e mais do que especiais.
Já não queria ver nada. Não queria absorver mais estímulos. Não queria mais símbolos, nem regulamentos, nem autorizações. Não queria ter que ter mais histórias para contar. Queria que me lessem os pensamentos daquilo que sentia para não ter que falar. Nem Chinês, nem Inglês, nem Português.